Sexta-feira, 18 de Julho de 2008

Restos de ontem.


N. recebeu o bilhete logo pela manhã. Leu-o e deixou uma resposta no fim do dia para H. e vários dias se passaram nessa mesma rotina de cartas. As cartas entravam na rotina para tirar a rotina da vida dos dois. A cada dia uma nova carta. N. descobria coisas sobre H., e H. descobria coisas sobre N. no começo trocaram confidências, depois vieram os gostos. Os livros enviados, os filmes devolvidos. H. mostrou a N. Morangos Silvestres*, e N. mostrou a H. Morangos Mofados*. Ela dizia que chorava sempre que via um filme. Ele respondia que a cada novo livro emprestado era inspiração para seu livro.

Seis dias, duas semanas, um mês. O tempo foi passando e há cinco meses os vizinhos se conheciam. Mas prometeram no silêncio das letras que o contato físico não aconteceria. Não por um tempo. Ambos sabiam que todo aquela atmosfera acabaria com um encontro. H. escrevia seu livro, N. terminava a faculdade. Viviam suas vidas como se esses acontecimentos fossem paralelos à vida real.

“O homem quebrado, que há meses, talvez anos, se alimentava apenas de leite e biscoitos, de livros, mas de muita hipocrisia agora...”

E numa manhã de quinta feira, H. acostumado a dar bom dia e receber o envelope, leu coisas que não queria. Não que não desejasse a felicidade de N., mas era tudo tão mágico pra acabar tão cedo.

“Não consegui prever sua reação, mas daqui há dois dias não estarei mais aqui para compartilharmos nossas vidas. Irei embora, outra cidade, outro emprego. Não quero me demorar. Só peço que se for de sua vontade, encontre-me na estação no dia 22 para me nos despedirmos. Usarei um casaco cáqui”.

Sentiu vontade de chorar. Mistura de alegria e tristeza. Mas sabia que era mais alegria.

Chegara o dia em que encerrariam um ciclo de suas vidas. N. vestiu-se com meia fina, vestido e casaco. Colocou uma bolsa a tira-colo e trancou o apartamento. Despediu-se do gato da vizinha que estava no corredor, e saiu. H. colocou o velho chapéu que não usava há tempos, o casaco preto e a camisa regata branca. Pegou um embrulho e sai com ele debaixo do braço.

Em vinte minutos embarcaria. Viu H. nitidamente pela primeira vez. 28 anos talvez. Não mais que isso. – “tão bonito” – Ele caminhava decidido em sua direção. Encarou-a nos olhos quando se aproximou. – “Ela parece vaga”.

- Então é isso, não é? Acaba aqui.
- Acaba aqui para durar uma vida inteira.
- Serei grato a você por ter se emprestado a mim.
- Eu também. Obrigada e adeus!
- Adeus N. Boa sorte! E isso é para ler durante a viagem.

Abraçaram-se. Agora era mais tristeza do que felicidade. Mas ambos sabiam que logo passaria. N. beijou o rosto de H. e foi embora. Embora para sempre.

Acomodada em sua poltrona, abriu o embrulho e leu. Era o livro de H., terminado, com uma dedicatória a ela. “Para ela que foi parte de mim”.

“...agora era um homem inteiro graças a uma menina. Uma grande mulher”.

Uma lágrima escorreu dos seus olhos. – “At the final moment, I cried. I always cry at endings*” – Limpou com as costas da mão, enquanto H. atravessa a rua da editora. Anos mais tarde ele se casou, teve filhos e publicou mais livros. Ela mudou-se para outro país, tingiu os cabelos e fez uma tatuagem.


*Trecho da música Get me away from here, I’m dying, Belle and Sebastian.
*Filme de Ingmar Bergman.
*Livro de Caio Fernando Abreu.

(Minha intenção era postar só amanhã, mas meu monitor está preste a quebrar, então resolvi postar hoje).

Sábado, 12 de Julho de 2008

Restos de ontem. (Parte III).


Fora uma noite difícil. Não costumava levantar para ir ao banheiro nem beber água. Mas não conseguia dormir. Sentia-se fatigado, mas não sabia do quê. Acordava em intervalos regulares com sede e frio. Ansiedade das coisas que estavam por vir, das quais ele ainda não tomava conhecimento.
06h00 e o relógio desperta. – Tão cedo? – pensou H. que se sentia quebrado pela noite mal dormida. – Talvez se eu ficar um pouco mais. Ninguém no trabalho notará. – Mas mal sabia H. que aquele era um dia decisivo na sua vida, e passaria horas se arrependendo de ter dormido mais um pouco. Mas era tarde quando resolvera levantar. Quarenta e cinco minutos de atrasado não lhe permitiam tomar café da manhã e escolher minuciosamente qual das camisas brancas vestiria.
Saiu apressado, tropeçando nos próprios passos quando o porteiro o abordou para lhe entregar um envelope. – “Uma moça mandou lhe entregar. Nunca a vi por aqui” – Como numa daquelas cenas de cinema em que tudo acontece repentinamente mas logo pára para dar lugar ao rosto perplexo do protagonista. Foi o que houve com H. Agradeceu ao porteiro e foi caminhando para o trabalho enquanto abria com a cautela de quem teme que algo se escape entre os dedos.
Leu no ônibus, no metrô, no trabalho, no almoço. Mas uma única frase ecoava em sua mente – “Estarei esperando”.- Ela espera, pelo menos por uma resposta, por pior que fosse. E se sentia na obrigação de responde-la. Sentia-se assim por ter invadido sua vida. E mais que isso: sentia-se feliz e disposto. Não sabia ao certo se pela cafeína que consumira durante o dia ou pela carta. Não se importava. Gostava dos dois.
E no fim do expediente teve coragem o suficiente para lhe responder:

“N. sinto-me um idiota. Idiota não é bem a palavra, mas por falta de um vocabulário melhor, nas atuais circunstâncias, é a que prefiro usar. Não nego que tenho invadido sua vida por vários dias. Mas na ânsia de completar a minha é que o fiz. Mas se não a incomodei, e pelo que parece, foi bem o contrário, fico feliz em saber. E ficarei feliz em saber qualquer coisa sobre você.

H.".

Na volta para casa, deixou o bilhete no mesmo envelope que recebera, no prédio de N. dormiu feliz naquela noite.


(Quarta e última parte no próximo sábado).

Sábado, 5 de Julho de 2008

Restos de ontem. (segunda parte).


Ao perceber que a menina o notara, H. recuou para dentro da sala. Numa tentativa inútil de desabitar o lugar, inexistir, apagou a luz. Sentia-se nu, descoberto, arruinado. – Com que direito ela me descobre, me tira o gosto de olhar, de fazer parte não estando? – Voltou a olhar, agora com dificuldade através da cortina, no escuro, e N. ainda esperava uma resposta. H. foi para a cozinha, procurou água gelada, mas não tinha. Bebeu mesmo assim. Coçou a testa procurando alguma solução. Nada.

Alguns minutos se passaram e o homem não retornara a janela. Era de se esperar. Ninguém nunca retornara na vida dela, porque a silhueta de um homem retornaria? Fechou as cortinas, e procurou papel. Com a luz fraca de um abajur, esboçou um bilhete:

“Não sei como deve lhe chamar. Sei apenas que não deseja que o chame. Mas escrevo para dizer que ontem, e talvez há muito mais tempo têm invadido minha vida como se fosse um filme para ser assistido. E eu que sou acostumada a restos de ontem – de alguém que não telefonou, de alguém que não vive mais, um apartamento deixado como lembrança, o gato que saiu para passear e hoje só me resta a tigela de leite – agora tenho mais a sua imagem que não retornará mais, creio. Mas se pretende voltar, não me importo de qual jeito, estarei esperando”.

No dia seguinte o bilhete foi entregue, logo pela manhã, quando N. ainda arrumava o curto cabelo que em especial, naquele dia, parecia não querer se arrumar. O porteiro achou estranho. Não sabia nada sobre H., apenas que era um homem reservado e de quase nenhum bom dia. Mas mesmo assim esperou que o mesmo descesse para pegar o jornal, para lhe entregar. E justamente naquele dia, H. demorou a descer.


(Continua semana que vem).

(Não estou conseguindo comentar na maioria dos blogs).

Sábado, 28 de Junho de 2008

restos de ontem.


“H. lavou os pratos. Pregou os botões e afagou o gato. A máquina de escrever, sólida e inanimada, parecia olha-lo com displicência. O papel quase em branco mostrava ausência de idéias. – “Sou um ladrão de idéias. Não as tenho. Fico na espreita de algumas sobras nas milhares de páginas que leio. Tampouco falo de sentimentos. O barulho é a ausência de todo sentimento. Espero a pessoa do décimo andar do prédio à frente abrir as janelas para que possa ver todos os dias a mesma pessoa vendo a mesma tv. Sou também um ladrão de acontecimentos. Acontecimentos alheios. Nada meu”. – H. falava com o gato.
O papel esperava uma continuação. Um café sem reticências. Um capítulo por terminar. Pessoas para conhecer. Um homem quebrado, porém não morto. O título que sugira antes mesmo da idéia, num sonho.


No décimo andar do prédio à frente, N. olhava para a tv, mas sem mesmo saber o que se passava. As unhas por fazer, o cabelo por cortar, um livro não lido. Pessoas para conhecer. Cantava uma música que dizia “All eyes are on me now”. Desistiu da tv, e foi para a janela. No décimo segundo andar do prédio da frente, um homem a olhava. Não sabia ao certo se era ela, ou o ambiente que ele observava. Procurou responder com o mesmo olhar. Mas seu olhar era vago. Não havia semelhança alguma. Mas ao perceber que alguém na janela o observava, o homem recuou. Apagou as luzes e fechou a persiana”.




(Imagem do filme "Janela Indiscreta").

Sexta-feira, 27 de Junho de 2008

Francis ajusta seus óculos de aro grosso e branco na altura do nariz. Parece não se importar com as altas risadas da mesa ao lado. Escorrega o dedo entre uma página e outra do jornal, e procura algo não interessante para ler. Enquanto o velho vestido de cáqui oferece mais uma dose de bebida à garota que o acompanha no mesmo local. Francis repara que há um quadro, bem ao lado de sua mesa. Frida Kahlo. Um retrato. Os cravos mergulhados em água ainda parecem frescos. O chá está quente, mas doce. Queima-lhe de leve os lábios, mas a temperatura a aquece a garganta. A xícara se esvazia enquanto H. afaga um gato num banco qualquer, no apartamento ao lado de um vendedor de jornais chamado P.
O rosto de Frida encara Francis, pedindo-lhe que a ajuste. O quadro está torto. Francis levanta-se, movimenta os braços, mas recua quando percebe que o velho vestindo cáqui a encara. Paga a conta e sai.
Quem vai limpar os cinzeiros sujos de Nelli?

Sábado, 21 de Junho de 2008

Viva La Vida


Sou bem impaciente e ansiosa quando se trata de comprar cds novos. Semana passada lançou o novo do Coldplay, e eu dei um tempo de dois ou três dias e fui comprar (não fui antes por falta de tempo mesmo). Dei uma olhada no site da Saraiva, pra ver a faixa de preço. Tinha uma edição especial que ninguém no orkut soube bem dizer o que tinha de especial. Parece que só a embalagem mesmo. Mas no dia que fui comprar, não tinha chegado. Não tive tempo de esperar, e comprei a simples mesmo.
Não que eu compre muitos cds, mas os que eu compro geralmente são os das bandas que eu gosto bastante. Caso contrário, não gastaria dinheiro comprando algo que nem vou escutar muito. E o Coldplay é uma das que eu mais gosto. Uma das poucas que perdurou com a mudança de gosto musical que fui tendo ao longo dos anos.

Nunca fui boa com resenhas, e agora continuo uma negação. Mas as minhas impressões sobre esse cd novo, (nada técnicas, pois não entendo nada de música), são bem simples. Não está como os três anteriores. Você não irá encontrar músicas como Parachutes, Yellow e The Hardest Part. Mas encontrará coisas que o Coldplay nunca fez antes, em Cemeteries Of London e Yes.

Dos quatro cds, o que eu mais gosto de ouvir é o Parachutes, o que considero mais bem feito é o A Rush Of Blood To The Head. O último ainda não ouvi vezes o suficiente para dizer o que achei.

*

Recomendo:




Coldplay, Viva La Vida or Death And All His Friends.

Selos.





E tomando vergonha na cara, repasso os selos que ganhei da Camila, do Vinícius, da Idylla e da Menina Bonita.

Muito obrigada pelos selos, gostei bastante. Não repassei antes por falta de tempo!
E os repasso para todos da minha lista. Porque não sei pra quem eu já passei selos, e pra quem eu nunca passei, então, fiquem à vontade!