
N. recebeu o bilhete logo pela manhã. Leu-o e deixou uma resposta no fim do dia para H. e vários dias se passaram nessa mesma rotina de cartas. As cartas entravam na rotina para tirar a rotina da vida dos dois. A cada dia uma nova carta. N. descobria coisas sobre H., e H. descobria coisas sobre N. no começo trocaram confidências, depois vieram os gostos. Os livros enviados, os filmes devolvidos. H. mostrou a N. Morangos Silvestres*, e N. mostrou a H. Morangos Mofados*. Ela dizia que chorava sempre que via um filme. Ele respondia que a cada novo livro emprestado era inspiração para seu livro.
Seis dias, duas semanas, um mês. O tempo foi passando e há cinco meses os vizinhos se conheciam. Mas prometeram no silêncio das letras que o contato físico não aconteceria. Não por um tempo. Ambos sabiam que todo aquela atmosfera acabaria com um encontro. H. escrevia seu livro, N. terminava a faculdade. Viviam suas vidas como se esses acontecimentos fossem paralelos à vida real.
“O homem quebrado, que há meses, talvez anos, se alimentava apenas de leite e biscoitos, de livros, mas de muita hipocrisia agora...”
E numa manhã de quinta feira, H. acostumado a dar bom dia e receber o envelope, leu coisas que não queria. Não que não desejasse a felicidade de N., mas era tudo tão mágico pra acabar tão cedo.
“Não consegui prever sua reação, mas daqui há dois dias não estarei mais aqui para compartilharmos nossas vidas. Irei embora, outra cidade, outro emprego. Não quero me demorar. Só peço que se for de sua vontade, encontre-me na estação no dia 22 para me nos despedirmos. Usarei um casaco cáqui”.
Sentiu vontade de chorar. Mistura de alegria e tristeza. Mas sabia que era mais alegria.
Chegara o dia em que encerrariam um ciclo de suas vidas. N. vestiu-se com meia fina, vestido e casaco. Colocou uma bolsa a tira-colo e trancou o apartamento. Despediu-se do gato da vizinha que estava no corredor, e saiu. H. colocou o velho chapéu que não usava há tempos, o casaco preto e a camisa regata branca. Pegou um embrulho e sai com ele debaixo do braço.
Em vinte minutos embarcaria. Viu H. nitidamente pela primeira vez. 28 anos talvez. Não mais que isso. – “tão bonito” – Ele caminhava decidido em sua direção. Encarou-a nos olhos quando se aproximou. – “Ela parece vaga”.
- Então é isso, não é? Acaba aqui.
- Acaba aqui para durar uma vida inteira.
- Serei grato a você por ter se emprestado a mim.
- Eu também. Obrigada e adeus!
- Adeus N. Boa sorte! E isso é para ler durante a viagem.
Abraçaram-se. Agora era mais tristeza do que felicidade. Mas ambos sabiam que logo passaria. N. beijou o rosto de H. e foi embora. Embora para sempre.
Acomodada em sua poltrona, abriu o embrulho e leu. Era o livro de H., terminado, com uma dedicatória a ela. “Para ela que foi parte de mim”.
“...agora era um homem inteiro graças a uma menina. Uma grande mulher”.
Uma lágrima escorreu dos seus olhos. – “At the final moment, I cried. I always cry at endings*” – Limpou com as costas da mão, enquanto H. atravessa a rua da editora. Anos mais tarde ele se casou, teve filhos e publicou mais livros. Ela mudou-se para outro país, tingiu os cabelos e fez uma tatuagem.
*Trecho da música Get me away from here, I’m dying, Belle and Sebastian.
*Filme de Ingmar Bergman.
*Livro de Caio Fernando Abreu.
(Minha intenção era postar só amanhã, mas meu monitor está preste a quebrar, então resolvi postar hoje).
Seis dias, duas semanas, um mês. O tempo foi passando e há cinco meses os vizinhos se conheciam. Mas prometeram no silêncio das letras que o contato físico não aconteceria. Não por um tempo. Ambos sabiam que todo aquela atmosfera acabaria com um encontro. H. escrevia seu livro, N. terminava a faculdade. Viviam suas vidas como se esses acontecimentos fossem paralelos à vida real.
“O homem quebrado, que há meses, talvez anos, se alimentava apenas de leite e biscoitos, de livros, mas de muita hipocrisia agora...”
E numa manhã de quinta feira, H. acostumado a dar bom dia e receber o envelope, leu coisas que não queria. Não que não desejasse a felicidade de N., mas era tudo tão mágico pra acabar tão cedo.
“Não consegui prever sua reação, mas daqui há dois dias não estarei mais aqui para compartilharmos nossas vidas. Irei embora, outra cidade, outro emprego. Não quero me demorar. Só peço que se for de sua vontade, encontre-me na estação no dia 22 para me nos despedirmos. Usarei um casaco cáqui”.
Sentiu vontade de chorar. Mistura de alegria e tristeza. Mas sabia que era mais alegria.
Chegara o dia em que encerrariam um ciclo de suas vidas. N. vestiu-se com meia fina, vestido e casaco. Colocou uma bolsa a tira-colo e trancou o apartamento. Despediu-se do gato da vizinha que estava no corredor, e saiu. H. colocou o velho chapéu que não usava há tempos, o casaco preto e a camisa regata branca. Pegou um embrulho e sai com ele debaixo do braço.
Em vinte minutos embarcaria. Viu H. nitidamente pela primeira vez. 28 anos talvez. Não mais que isso. – “tão bonito” – Ele caminhava decidido em sua direção. Encarou-a nos olhos quando se aproximou. – “Ela parece vaga”.
- Então é isso, não é? Acaba aqui.
- Acaba aqui para durar uma vida inteira.
- Serei grato a você por ter se emprestado a mim.
- Eu também. Obrigada e adeus!
- Adeus N. Boa sorte! E isso é para ler durante a viagem.
Abraçaram-se. Agora era mais tristeza do que felicidade. Mas ambos sabiam que logo passaria. N. beijou o rosto de H. e foi embora. Embora para sempre.
Acomodada em sua poltrona, abriu o embrulho e leu. Era o livro de H., terminado, com uma dedicatória a ela. “Para ela que foi parte de mim”.
“...agora era um homem inteiro graças a uma menina. Uma grande mulher”.
Uma lágrima escorreu dos seus olhos. – “At the final moment, I cried. I always cry at endings*” – Limpou com as costas da mão, enquanto H. atravessa a rua da editora. Anos mais tarde ele se casou, teve filhos e publicou mais livros. Ela mudou-se para outro país, tingiu os cabelos e fez uma tatuagem.
*Trecho da música Get me away from here, I’m dying, Belle and Sebastian.
*Filme de Ingmar Bergman.
*Livro de Caio Fernando Abreu.
(Minha intenção era postar só amanhã, mas meu monitor está preste a quebrar, então resolvi postar hoje).










